Kaos Butoh


Descolonização de um corpo-espaço em fragmentação (a)temporal. Tempo da imanência - do acontecimento - em densidade constante. Tempo que emaranha o passado e suas (im)possibilidades de re-existência  em uma espécie de ancestralidade sem origem - com elementos tanto concretos de uma cultura/historia quanto delirantes, e não menos concretos por isso, de outras.

Tempo em permanente atualização, que traz também como (im)possibilidade concreta a virtualidade de um (ou vários) futuro(s), também presente(s), no corpo.

Futuro sem destino como possibilidade de um ser ainda porvir, não feito, desconhecido e presente, assim como está acontecendo, no corpo.

Corpo em disritmia de movimentos. expansão/contração com eixo variável, descentrado e móvel.

Corpo sem fronteira definida entre dentro e fora, que por vivenciar esse tempo específico (densidade ritual) baila movimentos que representam a si mesmos dentro de uma complexidade que considera política, historia, subjetividade e vida como fenômenos, que, cada qual a seu modo e com suas conexões próprias expressa e afirma sua diferença - em um estado de jogo-dança entre vida e morte - de fluxos, movimentos, ritmos, sentido e existência.


Kaos Butoh é uma trajetória de vida, um outro modo de se mover. Um processo intempestivo - experimental por excelência - onde a existência se afirma, ainda que de modo latente, passivo, subalterno, vegetativo ou morto, independente das mediações e convenções que qualificam a experiência dita humana. 
A fragilidade que surge justamente do excesso de fortaleza (identidade), fragilidade como campo de passagem para potências recônditas, ainda desconhecidas.
Também pode ser o oposto disso, e suas combinações inomináveis, indiscernibilidade, vigor inexplicável que produz movimentos incompreensíveis... equilibrar-se pela sombra enquanto escorrem sutilmente pensamentos em expirações, inspirando velocidade quente que alimenta a evaporação daquilo que se ritualizou, permitindo desfazer-se de imagens dadas, solidificando o animal que brota em um dos pés e se enraíza na nuca, fazendo rasgar pelas costas um buraco negro que suga desde um ponto todo o corpo, fazendo esquecer onde foi que começou essa dança, tendo como referência o desconforto e a necessidade de se seguir movendo, por outras alegrias, por muitas curas, de muitas ancestrais que abençoam e agradecem pela atualização da força.    

Em sua práxis radical Kaos Butoh está conceituada como modo de vida, distante de ser definida somente como mais uma linguagem estética das artes cênicas, performáticas e de dança. Está composta pela totalidade da existência e se apresenta de modo "formal" pela prática ritual-performática, assim como por escritos, sons, imagens...
SEM DUVIDA É UM MOVIMENTO!  

Entendendo o Butoh como movimento que arrasta a vida em sua totalidade aberta ao devir, abarcando e desejando se afetar pelo desconhecido, o outro, o estrangeiro, o incompreensível e inominável - incluindo a morte como possibilidade de "uma outra vida" que está "fora" do que até então conceituamos e percebemos (dentro) tanto da noção mística-religiosa que visa dar respostas verdadeiras a esse lugar limite da experiencia humana, quanto da noção biopolítica e humanista de vida, que com sua razão do necessário e do básico impõe formas de vida, nivelando, convertendo em poder  qualquer traço de diferença, e consequentemente matando tudo aquilo que está fora (só que dessa vez em relação ao que está dentro) e é considerado ilegítimo ou perigoso para a vida genérica - não há como sequer tentar entender a pratica da Kaos como uma disciplina fechada, como mais uma linguagem artística, como mais uma vertente ocultista ou como uma ação política. Se o butoh arrasta tudo junto indiscriminadamente então não tem como as coisas ficarem em seu devido lugar.

 
Kaos Butoh é menos um Butoh. Hoje se faz importante marcar essa diferença. O Butoh enquanto linguagem artística já tem o seu lugar marcado dentro da indústria cultural, e sua formalização (quando) esvaziada de vivência (ética-estética-política) segue a lógica da mercadoria. Kaos Butoh (como outras práticas experimentais, outros Butohs) acontece antes mesmo de sua elaboração como tal. Vem, antes, da própria vivência de Mogli ainda enquanto Clown, não como se vê em laboratórios e oficinas formais, mas morando na rua, Palhaça suja, Kuir sub humana. 
Foi se elaborando no corpo em conversas de tom existencialista, atravessadas profundamente por um desejo libertário e anárquico por destruição, pelo fim da civilização, do trabalho, do sujeito - mesmo sem saber oque isso poderia acarretar em termos concretos, de fato. Desejo de criação por outros modos de vida, de vida soberana (soberania do próprio desejo), cada vez mais distante da cidadania, do direito, da igualdade, que na vivência de rua, revirando lixo, convivendo e se reconhecendo como dissidente, bixa preta monstruosa, fora dos padrões brancos de feminilidade, de beleza, de sanidade e saúde, que pôde alcançar seu respiro, sua preparação para oque seria vivenciado de modo inumano, no Butoh. 
Tendo como elementos da composição de sua paisagem mental e afetiva: pessoas negras fumando crack e fazendo uma fogueira de coloração esverdeada em algum beco na zona portuária do Rio em transe ritual; uma mulher que morava no túnel da Central do Brasil, amava romances literários, se acomodava no espaço que fez como casa e transmitia paz; variadas imagens de Sadhus e Hijiras Hindus; a galera do viver de luz que não se alimenta de sólidos; uma matilha de crianças no centro da Cidade do México, a maior com menos de 6, se cuidando sem a presença de qualquer adulto e com uma força animal nos olhos... um pombo com as asas quebradas no meio do turbilhão de pés passantes... mas também a vivência de criminosos que se refugiam no meio da mata, das aldeias urbanas periféricas, quilombos alto sustentáveis, micorrizas, fungos, humos... a travesti de rua, sempre elegante com suas roupas recicladas, que vivia a praguejar quem ousasse comunicação.   imagens que alimentam - distante de qualquer romantização - o desejo pela margem, pela força múltipla e única que se encontra nas margens.  
Mas ainda antes de tudo isso, pela veia espiritualista que desde suas ancestrais familiares deu chão e horizonte para conduzir seu processo de modo intenso sem se esvair pela loucura da razão.
 
A crise é também um elemento fundamental ao processo. De fato Mogli chega ao Butoh pela crise. Crise de tudo o que até então fazia sentido e dava direcionamento em sua vida: a arte e o ativísmo. O processo crítico havia chegado ao seu limite e já não havia mais para onde caminhar com sentido, a própria prática artística que tinha por finalidade atualizar as potências do viver estava também comprometida pela narrativa capital que circulava pelas veias de seu corpo. Foi rolando a ladeira e se esfacelando que chegou de encontro ao seu primeiro contato com a prática, em um curso denominado "Mitologias de um Corpo", ministrado pela atriz e performer Adega Olmos. Nesse curso de caráter ritual iniciou-se "oficialmente" na prática. Aí se abria novamente um horizonte para o frescor na vida, justo e principalmente pela noção de ritualização da existência, atualizando as potências da tal re-existência que estava em processo de elaboração a alguns anos. No decorrer cartográfico dessas mitologias pessoais e universais (se pautando mais pelo fora e pela desrazão, do que por arquétipos), ao longo de anos experimentando em performance ritual (do cotidiano), pode situar de modo sutil e invisível a complexa noção de ancestralidade sem origem, que da tensão entre a impossibilidade de descolonizar e a urgência de se criar uma narrativa que pudesse ir além da anti colonização, garantindo o acolhimento das diversas narrativas internas e externas que exigem ações afirmativas de si (em direção ao se..), se pautando menos pelas designações do poder, pela fixação identitária, entendendo a identidade de modo negativo, como marcação (para a afirmação) do homem branco dentro da dialética colonial - a mulher, o negro, o índio, o cigano, o humano, a natureza e o animal... Nesse processo estranho, difícil, onde oque importa é menos a noção de verdade originária, de uma mitologia que sustente e oriente o fazer em vida, mas uma trajetória sem destino onde o acontecimento, a produção do acontecimento que atravessa a margem da diferença  é oque garante a força para o próximo movimento, movimento que devora a si mesmo e nesse devorar se depara com o outro da história, depois da margem (ruidosa, turva, atordoante), esse outro dizimado enquanto cosmovisão, enquanto língua que deu e da sentido único ao concreto de um modo de vida, "esse" modo que o movimento persegue... e que pode estar no sangue (sim também pode!), pode estar no nomadismo, assim como em um território consagrado por alguma ancestralidade... movimento altamente complexo e aberto (inacabado e talvez sem fim) da elaboração ético-estética. Fruto da realidade tal como está, do capital tal como se apresenta - e na mesma medida oculta a possibilidade de um outro além dele - e da necessidade de se movimentar de modo impossível, da inquietação em simplesmente aceitar a cultura (seja qual for) de modo passivo, confiante. Kaos Butoh.

Glaucus Noia, um grande parceiro de Mogli nessa trajetória foi quem a presenteou (de modo singular) nesse processo. Antes de conhecer o Butoh Mogli flertava com a proposta de Caos Dança, de Glaucus. Para além da produção estética e performática, e para além das poucas vivências que Mogli participou em Caos Dança a relação construída com Glaucus, entre o chão da delegacia (onde se conheceram após uma manifestação onde Mogli performava com o Exército de Palhaços em um anti G8, em 2007), as leituras madrugadas a fio, conversas em casarões em ruínas, passeios caóticos pela madrugada de São Paulo, danças alucinantes e inesperadas entre tantas outras vivências desembocaram na criação desse gênero de Butoh.
O NucleodeCaos é um desdobramento desse encontro, é o eixo compartilhado da pesquisa em Caos Butoh, onde dali se consolidou as conduções de vivências e apresentações, além da formação de um corpo coletivo para essa pesquisa. 
Antes de se formar o núcleo Mogli conduziu vivências e se apresentou no México durante 10 meses em diversas cidades e vilarejos, ao mesmo tempo Glaucus fazia o mesmo no Brasil. Ao regressar de viajem consolidaram a parceria após uma apresentação, e depois disso passaram a conduzir vivências conjuntamente. Das vivências (entre outras causas) foram chegando outrxs parceirxs como Andressa Zanette e Marcelino Bessa, que a seu modo seguem de modo singular com essa pesquisa, assim como Mogli e Glaucus, assim como Caos e Kaos

Anarcofake


InSurgido de um mal estar no seio de movimentações radicais de práxis libertária - por entre o tédio, a fragilidade, a contradição e o fracasso - suspira uma "alegria difícil", uma potencia a ser atualizada dentro de uma forma demasiada afirmativa, orgulhosamente ativista, totalmente confiante de seu lugar de resistência, e inevitavelmente "ingênua".

Em meio a inegável força de subversão gerada pelo movimento Anarkofunk - margem dentro da própria kontracultura punk, kontracultura popular, que, em um só movimento atualiza a seu modo a estética de um modo de vida comunitário e anti sistêmico, encorporando a forma de uma das expressões culturais mais comuns e compartilháveis  no/do rio de janeiro, o funk carioca - pulsa uma questão que se situa na margem de sua margem, no limite de sua própria força, na intersecção que beira o esfacelamento (leia-se  aqui imagem perfeita) de si, no risco de estar sutil e perigosamente do lado de lá daquilo que se opõe,  na sua borda prestes a transbordar... questão essa relativa a atualização de sua potencia e revisão de suas estratégias de guerrilha, questão existencial que tem no devir e no desdobramento de sua (eterna?) crise o sentido de produzir outros sentidos, para além (e dentro) dos jogos de poder institucionalizados, questão que contempla para aquém da contradição a possibilidade do fracasso como parte do plano.


Eis que: Anarcofake! a gêmea má (embora esteja além da dicotomia) do Anarkofunk, devir inevitável de um movimento radical em curso, autoanálise sem drama e sem ressentimento, que na verdade não passa de uma conversa de Mogli Saura com sigo mesmx, tendo como interlocução os movimentos de busca por vida forte e re-exisntência por onde se afetou.

Essa atualização, já em curso ah muitos anos, teve seu berço e desenvolvimento dentro dos "ensaios abertos" (apresentações) de Anarkofunk, em especial nos momentos em que Mogli se apresentava sola. Baseada em noções de "cuidado-de-si/cuidado-das-outras" e entendendo as relações como força motriz e base para qualquer empreendimento, o anti-projeto Anarcofake situa sua reflexão sob a perspectiva de uma crítica radical que possa dar conta de localizar a atuação do capital no subjetivo - da produção de valores e legitimação/naturalização de hierarquias, despotismos sutilizados e diluídos em forma de meritocracia, falocentrismo e tirania do desejo, já a muito tempo evidentes em movimentos de esquerda e libertários, que criam uma imagem positivista da luta, pautada por eficiência e produção, que não por acaso são protagonizados por homens cis heterosexuais (mas não só, ao passo em que a reivindicação do poder por parte de minorias políticas se vê MUITAS VEZES encarcerada em noções patriarcais, noções essas que visam dar legitimidade aos gestos se pautando pela convenção de poder instituída e consagrada - sem levar em conta o grau de complexidade dos mecanismos operantes nos jogos de poder, que no limite só fazem girar a roda - ), que em sua prática atropelam, desconsideram e menosprezam noções de cuidado e REAL apoio mutuo para além da competição que opera sutilmente em nós.

Dito isso o anti-projeto Anarcofake (ainda não lançado e em processo de confecção), que nesses anos todos vem murmurinhando aqui e ali, impactando por suas letras altamente auto críticas vem passando por processos em sua elaboração e tomando outras dimensões, que hoje já não estão tão identificadas com os movimentos e lutas, e se abrem para um horizonte mais amplo possibilitando abarcar existências, digamos, mais "comuns" do que as de onde foi gestado.

Até hoje só existe uma gravação, a da musica "Rap do Fracasso", que é a carruagem que puxa o (futuro) disco e o nomeia. Foi gravada dentro do projeto Choco Churros de Iago Pereira, por Iago e Vinoda Vani.
 

Mogli está em estúdio elaborando o album com diversas parcerias, entre elas a dos parceiros e produtores do album Glaucus Noia e Francisco Soares. O album ainda segue sem previsão de lançamento. Mas ta chegando...

Anarcofunk

 

"onde só havia horror e solidão, houve uma flor que nos deixa secas lembranças e extremas revoltas"

 

Zona portuária do Rio de Janeiro. Okupação kontra-kultural Flor do Asfalto. Em meados de 2009 inicio-se o processo de aceleração de chacinas promovido pela UPP (unidade de policia pacificadora) e Choque de Ordem, anunciando a catástrofe dos mega eventos de copa do mundo e olimpíadas, que afetariam de forma arrebatadora a vida das pessoas mais fragilizadas pelo capital em nome de uma revitalização megalomaníaca chamada porto maravilha. População sem teto, moradores das diversas ocupações urbanas, camelôs, perueiros, prostitutas e outrxs existências sub-humanizadas que habitavam o centro do rio estavam ameaçadas pela especulação imobiliária que visava diversos bairros e tinha como a menina dos olhos o Caes do Porto. É nesse contexto em que, da okupação flor do asfalto fluiu a secreção existencial daquilo que se conheceu por Anarcofunk. Uma kontra-informação, um delírio, um vômito, um panfleto, um alerta, uma ação direta praticada cotidianamente, um modo de vida; não uma banda mas uma anti-banda, guerrilha-psíquica, funk-tático,  produção de subjetividade,(kontra) cultura popular e re-existência. Anarcofunk é um acontecimento. as "apresentações" eram sempre tratadas como ensaio aberto e os microfones se propunham liberados. A cada momento poderia insurgir no espaço. Os acontecimentos funkistas anarqueiros se davam em lugares de luta como greves, ocupações, espaços de arte, espaços comunitários, auto geridos e libertários. Os tipos de eventos sob os quais havia convite eram variados, desde parada gay a aniversários de espaços de luta, festas de criança, atividades em praças, bares ciganos, saraus, encontros de rap, gig punk, kabarés, encerramento de seminários, festas kuir ... mas também invasões em eventos institucionais -nesses casos x artista convidadx ofialmente pelo evento abria espaço para que Anarcofunk invadisse e quebrasse tudo.

Anarcofunk ocorre de diversas formas e informalmente, sendo solo ou em dupla, por vídeo conferência, em bonde, ou, com quem está o microfone?

Se articulou "oficialmente" como coletivo por um breve período em 2011, nesse momento estava composto por Ayná Cadete, Ana Luzia, Jonathan Souza, Mogli Saura, Deborah Freire e Chapolim (os dois últimos co-criadores do movimento). Foi articulado ao longo dos anos (desde 2009) por diversas pessoas, projetos e coletivos, que compuseram, gravaram e se apresentaram como Anarcofunk, entre elas: Pacha Canta, Odarayá Mello, Dudu Pererê (Ratos diversos), Lidi Oliveira (Pagu funk), Paz berti, Coletivo coiote (Raissa Vitral, Bruna kury, Marcia Marci e Gilda boka de Karalha), Glauco Murta, Ernesto Senna, Alex silva, Coletivo levanta favela, Antena mutante, Festival feminista vulva la vida e outros tantos nomes perdidos nos microfones abertos, e outros, que, por escolha, preferiram o anonimato.

Mogli começa sua trajetória em Anarcofunk como bailarina e back vocal, trazendo o elemento estético kuir em sua performance. levou pouco tempo para que o traço kuir transformasse profundamente as apresentações e levasse a proposta do Anarcofunk para outro patamar, permitindo aprofundar e interseccionar os debates sobre gênero-dissidência, raça e classe.

ao lançar músicas autorais (como "bixa pobre" e "mistério da buceta") e potencializar na performance as discursividades de "racha macho", "mulher com a mão pro alto" entre outras de caráter feminista abre um portal para uma proliferação de discursos gênero dissidentes que culminaram posteriormente na criação do gênero Anarcofunk Coiotero, do Colerivo coiote.

Mogli fez apresentações solo e em parceria com Glauco Murta, Coletivo coiote e Coletivo Anarcofunk.
Hoje segue em seu processo com a música em seu novo e dissidente projeto Anarcofake. 

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